Quem organiza a lista de compras do mês vai sentir, aos poucos, o efeito de um fenômeno que começa bem longe do supermercado: o Super El Niño de 2026. Com projeção de aquecimento de até 3,2°C nas águas do Pacífico, patamar acima do registrado em 1997, um dos anos mais fortes já medidos, o fenômeno deve pressionar lavouras brasileiras e, com isso, o preço de itens que estão na lista de quase todo mundo.
Por que o clima mexe com o preço da comida
O impacto varia por região e por tipo de cultivo. No Sul, a tendência é de chuva acima da média, o que encharca o solo, atrasa plantio e colheita, aumenta a incidência de doenças fúngicas nas lavouras e pode prejudicar a qualidade da produção. Já no Norte, Nordeste e parte do Centro-Oeste e Sudeste, o problema é o oposto: menos chuva prejudica o plantio e o desenvolvimento inicial de culturas como soja e milho, principalmente nos sistemas de sequeiro, que dependem só da chuva, sem irrigação.
Os produtos mais pressionados
O café é um dos itens mais sensíveis: chuva fora de hora nas regiões produtoras de Minas Gerais, São Paulo e Bahia pode atrasar a colheita, dificultar a secagem dos grãos e até aumentar o risco de fermentação indesejada, além de antecipar a floração dos cafeeiros e bagunçar o calendário da safra. Açúcar e cacau também entram na lista de produtos que tendem a ficar mais caros com o clima extremo nas lavouras. E como soja e milho são a base da ração usada na criação de aves, suínos e bovinos, encarecer esses grãos custa caro para toda a cadeia animal: o reflexo tende a aparecer no preço de carnes, leite e ovos, itens que pesam bastante no orçamento mensal.
Quanto isso pode pesar no bolso
As estimativas apontam que o fator climático sozinho pode somar quase 1 ponto percentual à inflação geral de 2026. O efeito mais forte, porém, é projetado para 2027: a inflação de alimentos consumidos em casa pode ficar entre 7,5% e 9,5%, caso os efeitos climáticos esperados se confirmem. Vale lembrar que projeção não é sentença: safras podem reagir melhor ou pior do que o previsto, e o preço final também depende de câmbio, exportação e outros fatores de mercado, então o número serve como alerta, não como garantia.
Como ajustar a lista de compras com antecedência
- Compre em maior quantidade itens não perecíveis que tendem a subir, como café e açúcar, quando encontrar promoção, desde que caibam no orçamento do mês e na validade do produto.
- Compare preços entre mercados da sua região antes de fechar a lista fixa do mês, já que a alta não chega no mesmo ritmo em todo lugar.
- Fique de olho em proteínas alternativas caso carne bovina suba mais forte: ovos, frango e proteínas vegetais costumam ser opção mais estável de preço em períodos de pressão sobre a ração animal.
- Acompanhe o noticiário de safra nos próximos meses: café, soja e milho têm janelas de colheita concentradas, e é nesses períodos que o preço reage mais rápido a problemas climáticos.
Perguntas frequentes
Todos os alimentos vão subir do mesmo jeito?
Não. Os mais expostos ao clima das lavouras, como café, açúcar, cacau, soja e milho (e, por tabela, carne, leite e ovos), tendem a sentir mais o impacto do que itens processados ou importados de outras regiões climáticas.
Quando esse aumento deve aparecer nas prateleiras?
O efeito mais forte é projetado para 2027, já que leva tempo entre o problema na lavoura e o reflexo no preço final ao consumidor, mas o fator climático já pode contribuir com a inflação geral ainda em 2026.
Vale a pena estocar comida por causa disso?
Estocar com moderação itens não perecíveis que você já consome normalmente, aproveitando promoções, faz sentido. Compra em pânico ou muito além do consumo real do mês tende a pesar mais no orçamento do que ajudar.